terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Re-encantar o ambiente ou alimentar o individualismo

A vida moderna nos tem levado a um padrão de comportamento individualista. Estamos rompendo cada vez mais com a história dos primeiros primatas, que se uniam a um determinado grupo para obter maiores chances de sobrevivência e tinham na contemplação da natureza uma fonte de aprendizado.Quem já ouviu falar das famosas histórias de conto de fadas, em que ambientes encantados eram palco dos que viviam felizes para sempre? Tais recordações nos inspiram a uma certa nostalgia que nos faz pensar: felizes eram aqueles que viviam em completa harmonia com o ambiente natural, num caminhar lento, romântico e contemplativo.Temos nos distanciando cada vez mais desse padrão de felicidade nostálgico, pois o avanço tecnológico e a falta de segurança levaram o ambiente natural para dentro de nossas casas através dos meios de comunicação, tornando-nos cada dia mais individualizados. Por outro lado, a qualidade de vida tem se apresentado nos momentos compartilhados, na harmonia com o ambiente e nos compromissos sociais.Apenas assumindo nossa humanidade comum e possivelmente harmoniosa seremos capazes de usufruir da fonte de paz e doçura presentes nos ambientes. Contudo, como vimos, os cenários apresentados na modernidade tendem a proteger cada vez mais o ser humano das intempéries apresentadas pela questão ambiental, em sua dimensão política, natural, econômica, tecnológica e social, incentivando a uma certa cultura de desencantamento da natureza.Tendemos a viver cada vez mais numa redoma de vidro, onde podemos dizer: aqui sim estou livre das intempéries da questão ambiental, incluindo, é claro, toda segurança contra marginais fruto também de nosso excessivo individualismo e descomprometimento com os problemas sociais.Cada vez mais temos vivido à frente de computadores, videogames e televisores, acostumando, assim, a nova geração a se individualizar. Nas ruas das cidades o simpático cumprimento entre vizinhos vem a cada dia se esfacelando, pois não mais me reconheço no outro, não me reconheço na natureza, vivemos como um objeto mecânico, objetificando a natureza e as pessoas, que passam a ter valor apenas pela sua utilidade. O compartilhamento comunitário vem deixando de ser interiorizado, ocasionando um sério problema de descomprometimento. Para sermos capazes de nos recuperar de tais caminhos tortuosos, como no caso da onda de violência que assola todo o Estado, devemos propagar uma missão de contemplar o ambiente e aprender com tal harmonia, resgatando o verdadeiro sentido de comunidade, onde as pessoas possam viver com o outro, pelo outro e para o outro, assumindo uma posição crítica em relação às leis que regem toda nossa sociedade, para que, assim, os municípios, o estado e o País possam gozar de certa qualidade de vida. Cabe ressaltar que ter apenas boa vontade não é suficiente; é preciso se envolver de forma ativa e satisfatória na construção do nosso futuro, cientes dos direitos e deveres presentes em uma sociedade democrática, que não se resumem ao voto popular, mas acompanha e cobra a todo instante do poder público uma gestão compartilhada e transparente. Esta empreitada será compartilhada por aqueles que ainda conseguem se sensibilizar com os problemas oriundos da questão ambiental, por não estar com olhos e mentes apenas voltados ao virtual, ao nacional, ao global, mais sim ligados ao local, ao real, onde o ambiente é contemplado e exaltado em seus mistérios, em sua divindade, em sua complexidade, e em suas injustiças decorrentes das relações sociais e econômicas, que instiga violência e nos aprisiona dentro de nossas próprias casas.

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