segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Responsabilidade socioambiental no campo da logística: o caso do porto Açu

A logística apresenta fortes relações com a questão ambiental, visto que atua com cadeias produtivas responsáveis por grande parte dos problemas socioambientais. Nessa perspectiva, o Porto Açu, projeto que visa à construção do maior porto da América Latina em São João da Barra será objeto de análise. Tem-se que para concretização do projeto a empresa deve tomar medidas que sinalize para uma atuação responsável no campo das questões socioambientais.
Uma das principais questões refere-se ao código de ética da empresa, pois o mesmo regula as ações com clientes, fornecedores, funcionários, comunidade, mídia, entre outros agentes que participam da cadeia produtiva. Cada elo dessa cadeia tem o poder de influenciar e ser influenciado pelos demais configurando, assim, uma relação de reciprocidade.
O código de ética pode ser dividido em código âncora e códigos específicos, o primeiro estabelece, por exemplo, as diretrizes gerais da empresa, como respeitar a legislação vigente e proporcionar um ambiente saudável visando bem estar emocional dos trabalhadores e das comunidades vizinhas, já os códigos específicos convergem para o código âncora e revelam-se indicadores de qualidade como o monitoramento da água, monitoramento da saúde do trabalhador, da qualidade de vida dos moradores do entorno e atenção as condições ecológicas para manutenção da saúde ambiental.
A legislação ambiental também contribui para o estabelecimento dos indicadores de responsabilidade socioambiental. O estatuto da cidade, por exemplo, regulamentado pela lei 10.257 de 2001 estabelece o plano diretor como um instrumento para política de desenvolvimento e expansão urbana e propõe o zoneamento ambiental que regula o uso e ocupação do solo. Já a resolução 1 do CONAMA (Conselho Nacional de Meio Ambiente) de 1986 trata do impacto e do licenciamento ambiental e oferece um relatório para a população local discutir problemas e soluções por meio de audiências públicas.
Vale lembrar, também, da lei 8.723 de 1993 que faz referência a poluição e propõe que os meios de transportes sigam padrões que evitam poluição demasiada e da lei 5.917 de 1973 que trata do plano nacional de viação.
Se a empresa responsável pela implantação do Porto trabalhar com todos os requisitos mencionados terá chance de ter apoio popular e evitar as ações civis públicas garantidas pela lei 7.347 de 1985.
Os avanços nos marcos regulatórios, no código âncora e nos indicadores institucionais (código específico) remetem-nos para o campo da logística como uma das propulsoras para construção de sociedades sustentáveis por meio da responsabilidade socioambiental.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Vulnerabilidade ambiental

NR 9 - Programa de prevenção de riscos ambientais
Operador cognitivo
Newton ao pensar em todas as suas colaborações disse que só chegou tão longe porque estava olhando sob os ombros de um gigante
Texto didático
A norma regulamentadora número 9 trabalha como a ideia de que riscos ambientais podem causar diversos impactos à saúde de um trabalhador, considerando aspectos químicos-físico-biológico. Seguem alguns destes riscos: ruído; calor radiante; iluminação; ergonomia e a exposição à umidade
Desse modo, necessita-se uma atenção especial para confecção de um mapa de risco aproximado do ambiente de trabalho, dando destaque para os equipamentos de proteção coletiva (EPC) que minimizam a vulnerabilidade proveniente da exposição ao risco.
A vulnerabilidade pode ser pensada com base nos seguintes parâmetros: o nível de proximidade e a quantidade de elementos nocivos em um espaço determinado, o tempo de exposição ao risco, a situação de saúde do indivíduo ao entrar na empresa, os exames periódicos e as características psicológicas, biológicas e sociais do mesmo.
A mensuração do nível de saúde do indivíduo é realizado por uma anamese (exame preliminar do médico) contendo exames de vista e auditivo, dependendo do cargo ao qual será submetido. Caso o individuo tenha algum prejuízo em decorrência de sua exposição ao risco deverá receber indenização da empresa.
Com objetivo de entender as variáveis e as situações de vulnerabilidade as quais os indivíduos estão submetidos sugere-se o trabalho com a seguinte matriz:
( ) Nome do colaborador
( ) Riscos eminentes
( ) Posição do colaborador na empresa
( ) Nível de Exposição ao risco (alto) (médio) (baixo)
O preenchimento destas informações facilita a compreensão do cenário para especificar as variáveis presentes no ambiente de exposição. Os indicadores que compõe o fenômeno podem mensurar de forma aproximada o nível de vulnerabilidade a qual o individuo está submetido.
A questão cultural e o bem-estar emocional também devem fazer parte da análise dos riscos ambientais, visto que aumenta o número de problemas psicológicos oriundos de conflitos no ambiente de trabalho.
Tal cenário sinaliza para uma análise de cunho transdisciplinar, pois o olhar fenomenológico lançado por diferentes profissionais ao fenômeno – vulnerabilidade do indivíduo - contribui de forma diferente para saúde do trabalhador.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Atenção conjunta e aprendizgem cultural



“Nenhum ser humano se humaniza sozinho. Sempre precisa do outro que testemunhe seu inacabemento” (Lapassade, 1963, p. 40)

Os seres humanos são indivíduos institucionais que buscam por reconhecimento no seio de um grupo em que possam fortalecer-se mutuamente. A principal motivação para que tal fato ocorra é o mecanismo de diferenciação.
Quando amenizamos o grau de etnocentrismo presente nesse mecanismo e a necessidade de recorremos a ele para nos sentirmos “confortáveis”, abrem-se campos de possibilidades que permitem uma ressignificação da identidade do indivíduo e uma evolução no campo do saber por meio da dialética.
A percepção do outro como iguais ou semelhantes que se dá nos primeiros meses de vida quando estamos sentindo/descobrindo a nós mesmos por meio do reconhecimento do outro em seus atos intencionais, apresenta-se como uma questão central do desenvolvimento da espécie humana.
Parte-se da ideia de que quando se observa alguns traços parecidos com aqueles que compõe a percepção do individuo em relação a si próprio, o mesmo sente-se atraído, visto que se faz presente o bem estar proporcionado pelo reconhecimento recíproco. Neste ponto, pode-se intuir a ideia do bom selvagem de Rousseau. Estaria presente no ser humano uma “essência”, uma questão biológica, que sinaliza para adoção do reconhecimento recíproco por meio do fortalecimento do sentimento de pertencimento.
Tomasello (2003) apresenta indícios desse fato nos bebês ao refletir sobre a forma como os mesmo dão sentido as suas ações, visto que os outros são “como eu” e “qualquer nova compreensão de meu próprio funcionamento leva imediatamente a uma nova compreensão do funcionamento deles” (p.99). Este fato ocorre porque só temos acesso ao mundo a partir da nossa percepção.
O poema de Fernando Pessoa (1934) apresenta-se bastante ilustrativo para pensar a questão da percepção do individuo:
Como é por dentro outra pessoa
Quem é que o saberá sonhar?
A alma de outrem é outro universo
Com que não há comunicação possível,
Com que não há verdadeiro entendimento.
Nada sabemos da alma
Senão da nossa;
As dos outros são olhares,
São gestos, são palavras,
Com a suposição de qualquer semelhança
No fundo.


As fases do desenvolvimento dos bebês nos primeiros meses de seu nascimento podem ser traduzidas da seguinte forma: seis meses compartilham emoções, nove meses compartilham objetivos, ações e percepções e quatorze meses demonstram capacidade de ação conjunta para atingir um objetivo.
O desenvolvimento da criança que ocorre por volta dos noves meses foi traduzido por Tomasello (2003) como capacidade de atenção conjunta. Sendo, inclusive, suas dificuldades nesse campo uma das principais características do autismo.
Vale ressaltar, que a atenção conjunta é um elemento importante para o desenvolvimento da criança e marca as características únicas da espécie humana em relação aos primatas não-humanos.
A atenção conjunta se caracteriza, principalmente, pela interação/compartilhamento da atenção com um adulto ao seguir os olhares dos mesmos mediados por um objeto.
Essa interação apresenta-se em dois formatos. Na primeira fase a atenção está centrada no adulto e existe certa preferência pela face do mesmo. Em uma segunda fase o bebê consegue perceber o campo de intencionalidade do adulto ao prestar atenção na atenção que o mesmo dedica ao seu relacionamento com um objeto.
A ideia da intencionalidade é relevante para pensar no desenvolvimento cognitivo e na aprendizagem cultural que ocorre por volta dos oito meses de idade quando os bebês passam estabelecer relações entre objetos dispostos no ambiente que lhe cerca. (Tomasello, 2003)
Em um período inferior aos noves meses a criança apesar de ser capaz de estabelecer “protoconversas” compartilhando emoções com os adultos, quando colocado um brinquedo depois de um obstáculo ele interage com o obstáculo “desligando-se” do brinquedo. Depois dos nove meses o bebê consegue montar um “mapa mental/imagem mental” que indica a localização do objeto previamente (intencionalidade).
Por volta dos noves meses, já começa a existir, além das trocas “instintivas” que já estavam presente, como levantar o braço para ser pego no colo, uma série de relações entre estímulo e resposta que pode condicionar a criança para repetir certo padrão de comportamento.
Neste ponto ocorre a aprendizagem cultural com grande intensidade, tanto por imitação, como por simples observação dos rituais dos adultos quando interagem com os artefatos e dão a eles significados específicos. Cria-se um campo de ação conjunta no qual os sujeitos da interação compartilham significados.
A espécie humana é a única que continua recebendo informações relevantes para lidar com o ambiente. Tais informações são marcadas por um alto grau de intencionalidade por parte dos adultos, responsáveis por sua entrada no mundo da cultura.
Tal fato proporciona ao indivíduo a possibilidade de se beneficiar da experiência do outro por meio do que Vygostky chama de zona de desenvolvimento proximal evitando esforços que já foram realizados por seus co-específicos.
Os adultos são responsáveis por ordenar o mundo da criança eliminando o excesso de variáveis, o que significa que a criança vive certas experiências e não outras, configurando o que Boudieur denomina de “habitus” do individuo, criando, assim, um mundo particular “confortável” que ao se abrir a outros mundos produz um aumento do campo de possibilidades para ressignificação da sua identidade.
Daí a possível referência a história representada pela linha vertical na ideia de Newton. Para o mesmo, ele só chegou tão longe com seus experimentos que almejava conhecer a realidade, pois estava sendo sustentado pelos ombros do gingante, ou seja, pela herança e pela aprendizagem cultural, processo que se inicia quando bebê por meio da criação de um campo de atenção conjunta, do estímulo e resposta e da intencionalidade.
Referências bibliográficas
LAPASSADE, Georges. L’entrée dans la vie. Essai sur l’inachèvement de l’homme. Paris, Minuit, 1963.
TOMASELLO, M. Origens culturais da aquisição do conhecimento. São Paulo: Martins Fontes, 2003

quinta-feira, 22 de abril de 2010

A manhã dos alagados

O jornal não chegou. O padeiro não passou e mais um cidadão brasileiro deixou de ir ao trabalho. A condução cotidiana enfrenta problemas. Pela janela, a mesma chuva que deixou as pessoas paradas 5 horas na noite anterior cai levemente, mas a rua continua alagada.

Problemas como este se repetem nas grandes cidades brasileiras, no fragmento acima uma grande quantidade de leis a favor dos cidadãos e do meio ambiente estão sendo desrespeitadas como as que se referem ao saneamento básico, saúde, locomoção, moradia e etc.
Existem culpados nesta história? Imagino que cada indivíduo irá eleger seus culpados com frase do tipo: “os problemas são dos políticos”, “é um dever do estado”, “é o aquecimento global, está chovendo muito”, “é a largura do rio”, “é o lixo que entope os bueiros”, “o povo não faz nada”. Por outro lado, podem existir aqueles que digam: “ainda bem, não vou ter que trabalhar”.
Não vejo outra saída para solucionar os problemas das enchentes, a não ser pela aproximação entre os diferentes atores sociais. Juntos poderão discutir propostas com o poder público. Será que a enchente precisa chegar à porta do prefeito, do governador ou do presidente para que alguma medida seja tomada?
Em outros locais do país não existem enchentes, mas os problemas seguem dinâmicas parecidas, ou seja, algum fenômeno afeta a saúde da população, desrespeita seus direitos e a situação continua acorrendo. O que será a lei? Um amontoado de letras mortas? Ou um guia para regular as ações dos indivíduos? Será que alguém conhece o estatuto da cidade, por exemplo?

O que era chuva, agora são pingos que caem das árvores. Alguns pensam se as árvores gostam de ser rio por um momento. Em outro canto da cidade, um engenheiro se questiona: “quando será que vão começar as obras no rio? Deve ter no mínimo 100 metros para água escoar” e sua esposa comenta: “tem que renaturalizar a paisagem”. Sentado a beira do rio o pescador ao ler a notícia pensa: “por isso minha casa está longe do rio” e a médica do posto de saúde que estava lendo a mesma notícia lamenta o aumento das doenças de veiculação hídrica. Visto as indignações de cada um, se reuniram no dia seguinte em um espaço público, convidaram pessoas, cada um dos participantes expôs seu ponto de vista e organizaram um documento com diretrizes capazes de contribuir com a solução dos problemas das enchentes.
Em texto que apresenta problemas e soluções, o final feliz ou trágico fica a cargo do leitor. Até a próxima chuva.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

O espírito da dádiva e o meio ambiente

O meio ambiente em sua perspectiva ampliada engloba não apenas a questão da natureza e do verde, mas também as relações sociais que estabelecemos diariamente.
Desse modo, pensar em um meio ambiente “saudável” é o mesmo que pensar em relações sociais “saudáveis”. Vale ressaltar que não tenho a pretensão de dizer o que é uma relação do tipo saudável, pois ela estaria impregnada de aspectos subjetivos, mas refletir sobre as relações sociais tendo como parâmetro a idéia da dádiva.
Segundo o antropólogo Marcel Mouss a dádiva consiste em dar-receber-retribuir. No entanto, não existe uma lei que regule esta relação de reciprocidade, do tipo você tem que receber e/ou tem que retribuir, entretanto, de certa forma, ela está implícita na constituição da nossa sociedade e é parte da nossa cultura.
A dádiva está presente tanto em nossas relações comerciais como em nossas relações entre amigos. O que se troca nestes encontros transcende os objetos materiais e liga-se também aos aspectos emocionais e espirituais.
Acredito que nas festas de final de ano tais tipos de relações sejam intensificadas, sendo possível perceber a dádiva movendo o mundo. Quando nos dermos conta que a dádiva perpassa nosso cotidiano, podemos aproveitar o momento para refletir sobre o que estamos dando para o meio ambiente em seus aspectos naturais, caso tenham dificuldade, um dica: procure lembrar como ele tem nos retribuído.

sábado, 30 de janeiro de 2010

Tarde de sol

Tarde de sol, a praia de Ipanema lotada, de repente eis que surge o grito no meio da multidão: “pega ladrão”, o que se viu em seguida foi uma grande quantidade de pessoas se mobilizando para capturar o infrator.
Enquanto a cena acontecia ouvia dos banhistas ao meu redor: “vai apanhar muito”. O ladrão realmente apanhou muito e foi pego, oficialmente, pela Guarda Municipal. Entre os passeantes no calçadão expressões como: “o cara roubou, os cara quebrou” – ao verem o rapaz se recuperar dos golpes da população enfurecida – ecoavam junto ao barulho do cotidiano que prosseguia com se nada tivesse acontecido.
A medida tomada pela população talvez diminua a possibilidade de novos roubos ou desafie a habilidade dos ladrões para praticar o delito e passar despercebido, mas, nesta cena, especificamente, fiquei com a sensação de estarmos criando um “inimigo da sociedade” uma vez que a expressão de ódio do rapaz sob o poder dos guardas era assustadora.
Não nego as dificuldades enfrentadas pela população do Rio de Janeiro frente à crescente violência, mas será que mais violência resolverá o problema? O rapaz poderia ser imobilizado pela população sem sofrer nenhum tipo de agressão.
Ficou nítido que o tema “pega ladrão” é ecoado para além dos passatempos infantis quando os mesmos se concentram no “polícia e ladrão” e em texto de jargões, com tema de grande complexidade e divergências, termino com “brincadeira de criança” e convido o leitor (a) para concluir o artigo.