sexta-feira, 24 de julho de 2009

Rio de Janeiro em Cena - O Celular Vidrador

Um rapaz sentou-se no banco do velho ônibus que o levava para sua cidade natal. No peito um celular escorregava pelo seu corpo e parava onde nossa vida se desenvolve quando por um cordão somos ligados a mãe. Naquele local algumas células vibravam trazendo a mensagem da dor.
Depois de um tempo de viagem uma mensagem chegou ao seu celular. Seu velho amigo estava tentando se comunicar, mas não recebeu a resposta. O motivo da dor era o mesmo que não permitia a resposta.
O amigo queria saber por onde ele andava e com o que estava trabalhando, mas algum tempo depois soube através de um terceiro que o mesmo não trabalhava fazia um bom tempo.
O motivo da sua dor era fome e seu celular vibrava recebendo mensagens que induzia vergonha por tal situação. A célula não fazia mais sua função, pois faltava nutrientes para o seu funcionamento, mas o celular continuava a pedir sua atenção.
Dormiu em um dos ambientes mais aconchegantes que conheceu (banco inclinado do ônibus). Esqueceu a dor e viveu um sonho bom no qual a vibração do celular anunciava tempos melhores. A dignidade batia em seu portão com força e lembrava-se de responder a seu amigo dizendo que felizmente estava tudo bem.
Voltava para realidade e se via envolvido novamente pela vibração da célula, do celular. Esta era a verdade ou apenas sua mente que denunciava a insatisfação? Decidiu lutar, pensou em vender doces nos ônibus como fazia alguns dos seus amigos.
Desceu do ônibus. Chegou em casa com a célula e a dor, mas sem o celular, pois fora roubado na esquina, afinal o celular que vibrava era um ótimo produto a ser vendido para aliviar a dor de quem sem mãe não mais se alimenta de pão, mas da droga que o faz viver mesmo que por um instante em um sonho bom.