quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Atenção conjunta e aprendizgem cultural



“Nenhum ser humano se humaniza sozinho. Sempre precisa do outro que testemunhe seu inacabemento” (Lapassade, 1963, p. 40)

Os seres humanos são indivíduos institucionais que buscam por reconhecimento no seio de um grupo em que possam fortalecer-se mutuamente. A principal motivação para que tal fato ocorra é o mecanismo de diferenciação.
Quando amenizamos o grau de etnocentrismo presente nesse mecanismo e a necessidade de recorremos a ele para nos sentirmos “confortáveis”, abrem-se campos de possibilidades que permitem uma ressignificação da identidade do indivíduo e uma evolução no campo do saber por meio da dialética.
A percepção do outro como iguais ou semelhantes que se dá nos primeiros meses de vida quando estamos sentindo/descobrindo a nós mesmos por meio do reconhecimento do outro em seus atos intencionais, apresenta-se como uma questão central do desenvolvimento da espécie humana.
Parte-se da ideia de que quando se observa alguns traços parecidos com aqueles que compõe a percepção do individuo em relação a si próprio, o mesmo sente-se atraído, visto que se faz presente o bem estar proporcionado pelo reconhecimento recíproco. Neste ponto, pode-se intuir a ideia do bom selvagem de Rousseau. Estaria presente no ser humano uma “essência”, uma questão biológica, que sinaliza para adoção do reconhecimento recíproco por meio do fortalecimento do sentimento de pertencimento.
Tomasello (2003) apresenta indícios desse fato nos bebês ao refletir sobre a forma como os mesmo dão sentido as suas ações, visto que os outros são “como eu” e “qualquer nova compreensão de meu próprio funcionamento leva imediatamente a uma nova compreensão do funcionamento deles” (p.99). Este fato ocorre porque só temos acesso ao mundo a partir da nossa percepção.
O poema de Fernando Pessoa (1934) apresenta-se bastante ilustrativo para pensar a questão da percepção do individuo:
Como é por dentro outra pessoa
Quem é que o saberá sonhar?
A alma de outrem é outro universo
Com que não há comunicação possível,
Com que não há verdadeiro entendimento.
Nada sabemos da alma
Senão da nossa;
As dos outros são olhares,
São gestos, são palavras,
Com a suposição de qualquer semelhança
No fundo.


As fases do desenvolvimento dos bebês nos primeiros meses de seu nascimento podem ser traduzidas da seguinte forma: seis meses compartilham emoções, nove meses compartilham objetivos, ações e percepções e quatorze meses demonstram capacidade de ação conjunta para atingir um objetivo.
O desenvolvimento da criança que ocorre por volta dos noves meses foi traduzido por Tomasello (2003) como capacidade de atenção conjunta. Sendo, inclusive, suas dificuldades nesse campo uma das principais características do autismo.
Vale ressaltar, que a atenção conjunta é um elemento importante para o desenvolvimento da criança e marca as características únicas da espécie humana em relação aos primatas não-humanos.
A atenção conjunta se caracteriza, principalmente, pela interação/compartilhamento da atenção com um adulto ao seguir os olhares dos mesmos mediados por um objeto.
Essa interação apresenta-se em dois formatos. Na primeira fase a atenção está centrada no adulto e existe certa preferência pela face do mesmo. Em uma segunda fase o bebê consegue perceber o campo de intencionalidade do adulto ao prestar atenção na atenção que o mesmo dedica ao seu relacionamento com um objeto.
A ideia da intencionalidade é relevante para pensar no desenvolvimento cognitivo e na aprendizagem cultural que ocorre por volta dos oito meses de idade quando os bebês passam estabelecer relações entre objetos dispostos no ambiente que lhe cerca. (Tomasello, 2003)
Em um período inferior aos noves meses a criança apesar de ser capaz de estabelecer “protoconversas” compartilhando emoções com os adultos, quando colocado um brinquedo depois de um obstáculo ele interage com o obstáculo “desligando-se” do brinquedo. Depois dos nove meses o bebê consegue montar um “mapa mental/imagem mental” que indica a localização do objeto previamente (intencionalidade).
Por volta dos noves meses, já começa a existir, além das trocas “instintivas” que já estavam presente, como levantar o braço para ser pego no colo, uma série de relações entre estímulo e resposta que pode condicionar a criança para repetir certo padrão de comportamento.
Neste ponto ocorre a aprendizagem cultural com grande intensidade, tanto por imitação, como por simples observação dos rituais dos adultos quando interagem com os artefatos e dão a eles significados específicos. Cria-se um campo de ação conjunta no qual os sujeitos da interação compartilham significados.
A espécie humana é a única que continua recebendo informações relevantes para lidar com o ambiente. Tais informações são marcadas por um alto grau de intencionalidade por parte dos adultos, responsáveis por sua entrada no mundo da cultura.
Tal fato proporciona ao indivíduo a possibilidade de se beneficiar da experiência do outro por meio do que Vygostky chama de zona de desenvolvimento proximal evitando esforços que já foram realizados por seus co-específicos.
Os adultos são responsáveis por ordenar o mundo da criança eliminando o excesso de variáveis, o que significa que a criança vive certas experiências e não outras, configurando o que Boudieur denomina de “habitus” do individuo, criando, assim, um mundo particular “confortável” que ao se abrir a outros mundos produz um aumento do campo de possibilidades para ressignificação da sua identidade.
Daí a possível referência a história representada pela linha vertical na ideia de Newton. Para o mesmo, ele só chegou tão longe com seus experimentos que almejava conhecer a realidade, pois estava sendo sustentado pelos ombros do gingante, ou seja, pela herança e pela aprendizagem cultural, processo que se inicia quando bebê por meio da criação de um campo de atenção conjunta, do estímulo e resposta e da intencionalidade.
Referências bibliográficas
LAPASSADE, Georges. L’entrée dans la vie. Essai sur l’inachèvement de l’homme. Paris, Minuit, 1963.
TOMASELLO, M. Origens culturais da aquisição do conhecimento. São Paulo: Martins Fontes, 2003

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